DOSSIÊ 302

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Carta aberta a todes parceires do Coletivo 302

Cubatão, 09 de outubro de 2020

 

Parceires, amigues e colaboradoes, vimos através desta carta expomos a situação de  violência que nosso trabalho tem sido submetido dentro da cidade e contamos com o apoio de vocês  para interceder quanto a continuidade dessas agressões.

Somos a Coletivo 302, grupo que vem desenvolvendo práticas teatrais, performativas, culturais e educativas desde 2014 na cidade de Cubatão/SP. Em 2018 fomos contemplades pela segunda vez por um edital ProAc para realizar o Projeto Zanzalá: Parte 1 - Vila Parisi. Esse é um projeto de trilogia teatral, pesquisa e recuperação histórica da memória da cidade de Cubatão e que pretende contar até 2026 a história de três bairros operários importantes para a construção do nosso imaginário, sendo eles: Vila Parisi, Vila Fabril e Vila Socó. Essa pesquisa é desenvolvida a partir de estudos teóricos e uma escuta ativa, onde recolhemos depoimentos orais de moradores da antiga vila e absorvemos em nossas criações.

Assim surgiu Vila Parisi, a primeira obra dessa série. Para realizar o espetáculo na Praça Cruzeiro Quinhentista, tivemos que dispor de uma estrutura cenográfica de proporções de uma encenação, composta por quatro barracos de madeira, uma piscina espelho d'água de 7m de comprimento, instalações performativas, equipamentos de luz e som para dar conta das dimensões do espaço, sem falar dos adereços, figurinos, etc. Contamos em nossa equipe com 30 profissionais envolvidas, entre elas, Eliana Monteiro, diretora do Teatro da Vertigem/SP. Por uma questão logística, seria impossível realizar uma ação desse tamanho sem ter um local próximo a praça Cruzeiro Quinhentista para salvaguardar toda essa estrutura. A partir do apoio de uma empresa de transportes, conseguimos emprestado um contêiner que nos foi disponibilizado para o tempo em que perdurasse nossas apresentações. Esse acordo se deu sem nenhum tipo de documentação e foi mediado por um vereador da cidade. Sempre tivemos respaldo e apoio da Secretaria de Cultura e da CMT (Companhia Municipal de Trânsito) , para além destas, havia também suporte da Secretaria de Manutenção Urbana e Serviços Públicos e Polícia Militar. Era de conhecimento público nossa estadia e permanência no espaço, para a realização desse espetáculo muitos órgãos foram mobilizados, pois para apresentação era necessária a limpeza da praça, roçagem do mato, desvio de trânsito, ronda da polícia, adequação de ponto de energia, etc. Todos os pedidos foram formalizados a partir de ofícios e as autorizações concedidas.

Nossa primeira temporada aconteceu de 13 de julho à 10 de agosto de 2019. E mesmo após a temporada, continuamos frequentando o Cruzeiro Quinhentista periodicamente para abrir o contêiner, as vezes para pegar algum equipamento ou material para outras ações culturais. Chegamos a prever novas apresentações ainda em 2019 que foram canceladas por conta da chuva. Durante as apresentações todos o vereadores da cidade foram comunicados e convidados através de ofício para prestigiarem e assistirem as apresentações, tivemos a presença do vice prefeito, da secretária de cultura, do secretário de comunicação da cidade dentre outras presenças que puderam fazer parte de nossa plateia. Em janeiro de 2020 realizamos duas sessões nos dias 25 e 26 e recebemos uma proposta contratual de apresentar mais duas vezes para uma equipe de curadores de um festival internacional do Sesc, o Mirada. Essas apresentações seriam realizadas nos dias 18 e 19 de abril. No dia 10 de março, a Secretaria de Cultura foi comunicada sobre nossa necessidade de agenda para ensaios e apresentações, foram solicitados todos os suportes de praxe, limpeza da praça, ponto de energia e roçagem.

Em 20 de março foi decretado estado de calamidade pública e com isso perdemos nosso contrato e também nossas fontes de renda, passando a contar com o auxílio emergencial. Os materiais do espetáculo seguiram na praça, guardados e trancados dentro do contêiner, não dispomos de outro espaço para alocá-lo, muito do material que temos foi adquirido com esse projeto e nunca ocupou outro lugar que não o contêiner.

Em 26 de agosto, recebemos uma mensagem às 8h54 da ex-secretária de cultura Vanessa Toledo, informando que a CMT havia pedido para que retirássemos o contêiner do local. Solicitamos tempo para resolver a questão, visto a conjuntura do momento, pedimos por sensibilidade e dissemos que retornaríamos. No dia 15 de setembro, vimos um vídeo de uma propaganda política na praça e não notamos a presença do contêiner, fomos imediatamente até o local e constatamos que não estava mais lá. No dia seguinte, 16 de setembro, procuramos a Companhia Municipal de Trânsito e um funcionário nos informou que eles tentaram durante bastante tempo contato com diversas instâncias para saber de quem era o contêiner, inclusive com a Secretaria de Cultura, e consideraram que a caixa de aço estava abandonada há 6 meses no local, servindo como ponto de droga e abrigo para pessoas em situação de rua, além de atrapalhar a visão dos motoristas, conforme afirmaram posteriormente em nota. Em nenhum momento foi comentado sobre alguma anormalidade referente ao fechamento do contêiner.

No dia 26 de agosto às 10h da manhã, guincharam o contêiner até o pátio do Jardim São Marcos, pátio este de responsabilidade da CMT e da Prefeitura de Cubatão, informando que havia um ônus de R$800,00 referente ao serviço de guincho contratado. Acionamos novamente a ex-secretária de cultura, que começou a mediar os contatos e se dispôs a buscar uma resolução. Aventamos a possibilidade de pagar pelos guinchos (ida e volta – R$1.600,00) e em acordo retorná-lo para um ponto base próximo da praça. Recuamos em querer arcar com os custos, pois entendemos que todas as tratativas em que fizemos em relação a CMT e a Secretaria foram comunicadas através  de ofícios e com antecedência. Quando nos acionaram em relação a retirada do container, recebemos essa informação poucas horas antes do contêiner ser guinchado, via aplicativo de mensagens e sem nenhum aviso prévio, como já citado anteriormente pedimos tempo para a resolução do caso, mas não fomos atendidos. Após o recuo em pagar os custos praticamente encerrou-se as conversas, mesmo diante da urgência, a secretária se indispôs a conversar com a gente, mantendo sua agenda de compromissos fora da cidade e não retornando contato, algo que nos surpreendeu, visto todos os apoios oferecidos até aqui.

Não conseguindo resolver a partir de todos os diálogos com as instâncias envolvidas e percebendo que não admitiriam responsabilidade quanto a falha de comunicação, acionamos o legislativo para poder interceder, buscando novo canal de comunicação e nos mantendo em contato com o superintendente da Companhia Municipal de Trânsito.

No dia 29 de setembro expomos a situação nas redes sociais e problematizamos com uma reflexão sobre quem deveria arcar com os custos. A imprensa local entrou em contato e também procurou a CMT. No dia seguinte todos os acordos pré-estabelecidos caíram e tivemos que reiniciar as discussões com o novo secretário de cultura a partir do dia 1 de outubro.

No último dia 7 de outubro por volta das 10h, após algumas tentativas frustradas de acompanhamento em datas anteriores, fomos permitidos a ir até o pátio localizado na Av. Plínio de Queiróz – Jardim São Marcos - Cubatão, pátio secundário da companhia de trânsito. Identificamos ao chegar que um dos nossos capacetes usados como adereço cênico estava servindo como tigela de água para um cachorro (de toda essa história, esse é o único vestígio de cuidado que encontramos), observamos marcas de alicate como sinal de arrombamento, um dos nossos cadeados forçados e o outro inteiro. Abrimos o contêiner com as nossas chaves e vimos tudo revirado conforme link denúncia do corpo do e-mail.

Contatamos advogados ligados aos movimentos que estamos associados e fomos instruídas a juntar todos nossos ofícios, notas dos nossos equipamento e outros documentos. Fizemos um boletim de ocorrência, no qual anexamos essas notas e aguardamos o inquérito ser instaurado para apuração.

Em nota, a CMT alega que no ato da remoção do contêiner, foi registrado que ele encontrava-se sem travas e cadeados e insinua que o furto tenha acontecido na praça onde o contêiner ficou por mais de 1 ano sem ser violado, sendo que na visita do dia 7 comprovamos que os nossos cadeados estavam no contêiner e abrimos um deles com nossa chave, que mostravam sinais de arrombamento. Essa praça para quem não conhece Cubatão, fica em frente a Refinaria Presidente Bernardes, que tem uma portaria com seguranças e câmeras de vigilância que possivelmente poderão comprovar a verdade.

Vale ressaltar que em nenhum momento de toda essa história fomos comunicados oficialmente, nem por ofício, nem por e-mail, nem por telefone, sendo a única mensagem via whatsapp.

Nos sentimos desrespeitadas/os enquanto cidadãs e trabalhadoras, entendemos que esse episódio é apenas uma amostra do descaso do  governo municipal com a cultura de Cubatão. Não se trata somente do contêiner ou do material de um grupo de arte que foi removido sem seu conhecimento e depois furtado numa ação bastante suspeita, mas de uma estrutura que sufoca a todes que tentam trabalhar com cultura nessa cidade. Vale reiterar que o material que foi violado e furtado e se encontrava dentro do contêiner foi adquirido através de recursos públicos do governo do estado, conseguidos através de edital do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (PROAC), dinheiro público investido e que retornamos através da produção do espetáculo e apresentações gratuitas contando a história da nossa cidade.

Do desmonte e desrespeito com a história e tradição da Banda Sinfônica e Coral Zanzalá à extrema invisibilidade e falta de apoio à coletivos, grupos e artistas independentes que persistem diariamente numa luta de sobrevivência e em busca de espaços de atuação, visto o sucateamento de todos os próprios públicos destinados à cultura.

Nós repudiamos o ocorrido, mas também repudiamos essa gestão mentirosa, violenta e criminosa ao que diz respeito ao direito de artistas, professoras, servidoras e cidadãs dessa cidade.

 

Agradecemos a atenção e disponibilidade e pedimos ajuda e apoio para que continuemos a realizar nosso trabalho de resgate da memória e valorização da nossa cidade, sem sermos lesados novamente, seja através de notas de repúdio ou também de outras formas que considerarem possíveis.

Não deixe a VILA PARISI ser soterrada!

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